sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Júlias

Essa era a terceira Júlia que ele gravava na memória do seu celular. Tinha que diferenciá-la da Júlia prédio e da Júlia, simplesmente Júlia, já que essa era a primeira a passar seu número para ele. Escolheu a sigla da Universidade de São Paulo. USP. Júlia usp. 5 minutos antes pediu 2 reais emprestados para pegar um ônibus para casa. Ela deu 5. Muito obrigado, salvou minha noite! Pode me devolver amanhã ou outro dia. A brasa do cigarro ia acabando lentamente, enquanto a memória ia se avivando.

Tinha visto a Júlia do prédio algumas horas antes em um corredor das ciências sociais. Apesar de tudo, essa era a que ele conhecia por mais tempo, desde a infância. mas perdeu contato por que se mudou e voltou a falar com ela só em 2008 ou 2009, ninguém se lembra ao certo.

A simplesmente Júlia era uma amiga e tanto. Não se viam fazia dois meses, desde quando se despediram para as férias com um abraço perto do portão da vilinha que cortava a rua do prédio. O mesmo da Júlia lá de trás. Sempre se afastavam nas férias, esses dois. Um em Vitória, o outro no interior de São Paulo. Era complicado, mas isso nunca foi grande obstáculo.

Eram companheiros de shows. Ou de conversas a dois em um bar do bairro. Ou também, mas isso faz muito tempo, colegas de ver filme de madrugada, quando nenhum deles tinha que acordar mais cedo. Aqueles eram bons tempos. Menos coisa pra se preocupar e mais a aproveitar. Numa sexta feira de novembro, enquanto bebiam um vinho sul africano, descobriu que ela fumava e confessou: Eu acho até errado falar isso, mas acho que mulher assim ganha um certo charme. E ganha, não ganha? Certamente.

Júlia, em um site qualquer que o Google indicou, significa cheia de energia. Engraçado. Dá muito bem pra lembrar disso quando vem a imagem daquela garota dançando com o vestido que rodava sem pretensão alguma. Isso sem esquecer o jeito com que balançava a cabeça ao som de Eddie, naquele lugarzinho até que apertado da nossa rua Augusta. E tudo isso veio enquanto a fumaça ia se dissipando, com uma última tragada.

Quando voltou pra realidade, apagou o cigarro com o all star fazendo aquela dancinha com o pé e pulou no Perdizes via Miruna com a nota de 5 emprestada.

Um comentário:

Marcelo disse...

Você faz eu pensar em coisas novas cara, você consegue.
Obrigado.
Um abraço.Ao nosso café!