quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Diário de um idoso

17 de outubro de 2075

Hoje estava andando pela calçada depois de visitar a clínica em que ajustei meu aparelho auditivo. Como todos imaginam, sou um velho de 86 anos muito sozinho. Os que compartilhavam os momentos comigo já estão longe em algum lugar. Pegaram a mala da vida, juntaram cada experiência e se foram. Puf. Fim.

Mas enquanto há fim para alguns, outros ainda estam na mais tenra idade. E foi um destes que eu vi, usando uma camiseta de mangas compridas e vermelhas. O jovem estava lá, parado, esperando o transporte público.

Eu estava muito sozinho e não me parecia ruim a ideia de uma aproximação.

-Você sabe se o Lapa passa ali na Sabesp?
-Me desculpe, mas não sei. Mas olha ali! Tá vindo um Lapa, você pode parar e perguntar, né?
-Isso, isso, obrigado!

Fui e perguntei pro motorista, que balançou a cabeça de um lado para o outro negativamente. Já tinha conversado com duas pessoas aquele dia! Poxa, eu deveria sair mais de casa!

E o estudante, que pela aparência devia seguir alguma carreira de humanas, achou que eu não reparei. Mas percebi que ele estava um pouco abatido. Decidi engatar o papo. Ao virar as costas de novo, para checar qual seria o próximo ônibus, percebi estampado em seu rosto o esboço do que um dia poderia ser um sorriso.

Me senti muito bem com aquela experiência e ele também precisava conversar. Jogar conversa fora, mesmo, nada demais. Eu procurava ser o mais delicado e atencioso possível, atitude recíproca do começo ao fim em nosso contato.

Alisei sua blusa na altura do ombro e não consegui deixar de dizer:
- Você ainda é novo, tem que aproveitar muito. O corpo vai acabando aos poucos. Sobra só a cabeça, e olha que só para alguns! A minha ainda está muito boa!

Uma exclamação repentina da parte dele:
- Eu imagino, mas é essa a parte mais importante de tudo.
Concordei comigo mesmo que não podia alimentar minhas esperanças de conseguir um novo amigo, mas era invitável em razão da ótima condução das palavras. Naquela época, eu não saberia que ele iria gostar de conversar mais, mas hoje, sim.

Hoje eu sei que quando aquele gigante laranja passou e me engoliu ficaram pra trás 21 anos de lágrimas e alguns minutos de experiência de paz.

Um comentário:

Arieta Carla Gualandi Leal disse...

Muito bom! Já li vários, mas esse e "Lembrancinha boa" foram os que mais gostei!