quarta-feira, 15 de abril de 2009

lembranças de hoje

As pernas amarravam-se como se nunca mais fossem se soltar. Aquele nó movia-se com graça e harmonia. Suas peles tentavam se tornar uma só. Por mais que sua relação fosse explicitamente sincera, seus sentimentos não o eram. Ele, sem conseguir entender a si mesmo, permanecia com a situação conservada em um vidrinho de formol. Ela, que tentava entender tudo aquilo que estava se passando, corria, confusa, em um carrossel sem montaria. Como dois amantes agiam.

Somente naquela noite, porém, não iriam se amar, como dizem por aí.

Por mais que ambos tentassem se expressar, isso não bastava para continuarem ali. Qualquer um que olhasse para aqueles dois veria através de seus sentimentos transparentes algo maior que o amor. O casal já tinha percebido isso faz tempo. Talvez fosse isso que fizesse com que continuassem felizes com tudo e, portanto, permanecessem imóveis.

Essa era sua bênção e sua sina.

Mal sabiam eles, que daí alguns dias iriam dançar juntos na chuva e algo iria mudar. Engraçado dizer isso, já que com música começaram a relacionar-se. Mesmo assim, nesse dia era como se essa chuva, desafinadamente acolhedora, fosse outra música para os dois. Música, esta, que não sabiam dançar; finalmente o improviso guiou seus pés. Mal sabiam eles, que isso marcaria o fim dessa história – ou melhor, de um capítulo dela – para algo totalmente novo tomar seu lugar.

E era exatamente isso que os dois precisavam.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Vagalume

Estou com medo...
Aquela coisa escura vem vindo e eu não sei o que fazer.
Fico sem reação.

E só me resta uma luz piscando na escuridão.

Tudo é belo.
O tempo não passa, para.
Maravilhoso e excitante.

Rapidamente ela passa, mal percebo o que aconteceu.
O que realmente aconteceu?
Com certeza, assumo que não sei.

O que vem depois disso?
Deve ser algo melhor ainda.
Mesmo a insegurança parece estar do meu lado agora.

Talvez não.
O que é preciso fazer?
Como consigo voltar para aquele lugar?

Devo ficar feliz com o que passou.
Muitos não tem nem isso para se agarrar.
Estou feliz. Feliz mesmo.

A escuridão me abraça pela última vez.
Estou calmo, parado, esperando pra ver o que acontece.
O que acontece são os primeiros raios de sol atingindo meus olhos.

Vai demorar para essa luz me abandonar novamente.
A eternidade de um dia.
E, mesmo que seja agora mesmo, de uma vez, já estarei preparado com aquele meu jeito de improvisar.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

cartas abertas

Eu e um grande amigo estamos trocando cartas. Pensamos, criticamos, raciocinamos, julgamos e publicamos.

Para quem se interessar,

http://e-pistolar.blogspot.com

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Dicionário interior

Decepção. É desconfortante, chega a ser perturbador às vezes. Ela pode ser até ignorada; fingimos que nada aconteceu e continuamos andando, sem mais nem menos. Mesmo assim, abala. Realmente não queremos acreditar. Mas e se, simplesmente aconteceu? É algo imprevisto, repentino. Mas para quê explicar, se todos já sabem exatamente o que é isso? Um pedido pode ser não atendido. É...não foi. E aparecem as dúvidas: virá outra desculpa, outra forma de explicação que, querendo ou não, me faz sentir melhor? Será que eu não merecia que isso acontecesse? Vamos esperar para ver o que vai acontecer. Quem sabe seja só imaginação, cría cuervos. Sempre acho que é.

Esperança. É aquilo que te prende à incógnita, ao futuro. Uma tentativa de enxergar as coisas com bons olhos, nunca temendo que o pior acontecerá. Mas, de novo, para quê explicar? Para mim, está quase sempre presente. Sou excessivamente otimista. Isso significa que me decepciono facilmente. Às vezes imagino que essa seja uma forma de enganar a mim mesmo. Quase sempre funciona, se o é. Mas outras vezes, acho que é simplesmente uma maneira de tentar, por meio de meus atos, que tudo dê certo no final. Mesmo que o final não dependa só de mim. Esse mesmo é um jeito otimista de enxergar as coisas.

Incerteza. É a estrada entre o que esperamos e o destino. É aquela parte que, na minha opinião, mais aprendemos. É o que, de certa forma, alimenta a esperança nas pessoas. Não saber o que vai acontecer, permite que imaginemos as situações um pouco mais do jeito como queríamos que fossem. Mesmo assim, nem sempre é o que acontece.

Mesmo assim, ultimamente tenho partido da esperança, passado pela incerteza e por mais otimista que fosse, acabava decepcionado. De que vale esperar alguma coisa, se ela não vai acontecer? Como sempre, espero algo definitivo, mesmo sabendo que quase nada na vida o é. Nem que seja para colocar em um embate a esperança e a decepção. Mesmo que para a esperança, a decepção tenha uma ceifadeira e se vista de preto. Mesmo que nem sempre, ela seja a última a ir para a sepultura.

(De fato, é o que aconteceu com você. Sei que não vai ler isso, mas...desejo para você que a estrada se torne mais fácil com o tempo. É o máximo que eu posso fazer e peço desculpas por isso.)

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Ludo-cidade

Como em um lance de dados, tudo muda com a sorte. Apenas um giro a mais na roleta, uma casa a mais no caça níquel: tudo muda. Tudo como um jogo. Parte da vida o é, afinal. Coringas e damas andando em carros e reis em comunidades, cada um com seu próprio naipe, distintas personalidades. Espadas e porretes dançando como se cada um defendesse seu próprio interesse se confundem com nossas discussões diárias. Os copos, quase sempre levantados, repousam nas mesas, vazios, enquanto o ouro nos abandona. Embaralhando as cartas, conhecemos novas pessoas, novos lugares. O acaso, colorido e translúcido - de formas variadas - nos proporciona a imprevisibilidade já esperada.

Com uma jogada bem feita, colocamos em xeque alguns reis, problemas de nossa realidade. São coisas que já não dependem de nada, a não ser eu e você - ou todos nós. As relações, estratégias e técnicas são, sim, necessárias. Muitas coisas acontecem somente, única e exclusivamente, pela ação tomada anteriormente. Sem fatores externos, sem mistérios. Nem sempre acontecem do jeito esperado mas, sem dúvida, de uma forma ou outra, foram frutos de uma escolha.

Agora, o que tento é imaginar como esses dois extremos unem-se em nossas vidas. A emoção e a razão, a sorte e a destreza, misturadas, formam tudo o que conheço. Unidas, compuseram tudo o que lembro e até o que ainda não passei. O que preciso, agora e sempre? Tomar as decisões de forma coerente e talvez, com alguma pitada de sorte, conseguir aproveitar tudo sem preocupação do que está acontecendo ou do que ainda há de vir.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

O que é Jodorowsky?

Assistam antes: The Holy Mountain - um comentário de um leigo, sem pesquisa alguma, apontando algumas impressões momentâneas

Religião, Sexo, Cultura, Comportamento, Inovação.

Tudo em uma montanha russa, indo de cima para baixo, para os lados, acelerando e brecando bruscamente. Tudo misturando em um grande caldeirão, formando uma receita um tanto doce, amarga, picante e azeda ao mesmo tempo. O que seria aquilo? Como o mundo recebeu tudo isso em 1973?

35 anos depois e ainda há um impacto enorme nos espectadores: The Holy Mountain, em português A Montanha Sagrada de Alejandro Jodorowsky. Será que todas as cenas, costuradas de maneira cirúrgica, com precisão, devem fazer sentido? Temos que abrir a mente ainda mais para desvendar todos os mistérios?

A negação da religião se dá pelo apedrejamento de um Cristo? Suas cópias podem ser vendidas, mas o que acontece com o original? Alguém realmente o conhece? Talvez nem ele mesmo consiga se explicar; talvez ele coma seu próprio rosto.

O que seria a humanidade? Um bando de sapos e lagartos? Cruz e espada aliados, confundidos com divindades, invadindo, matando, explodindo, escravizando um novo continente? A semelhança dos animais com nós mesmos é explícita.

"Você é um excremento", diz o Alquimista. Na verdade ele diz isso para todos nós. Somos todos excrementos. Mesmo assim, podemos nos transformar em ouro. Mas afinal, de que vale o ouro? O ouro seria o que gostaríamos de ser? Alguns desejos, sonhos, talvez. Ou apenas a merda seja aquilo que não queremos ser, que rejeitamos.

A beleza é padronizada; criação de um cego, surdo, mudo. Cada um tenta a unicidade por meios iguais. Todos acabam se tornando um mesmo rosto bonitinho, mesmo que cada um seja único. É uma tentativa de enganação. É disso que uma sociedade precisa para ser feliz, para se valorizar?

Jatos de tinta vermelhos lançados ao ar. Mangueiras apontam para os indefesos e logo depois, estão eles agonizando, ao chão, manchados. Os pássaros voam de dentro das vítimas. Seriam as almas?

Nem fazendo milagres, Jesus conseguiu salvar a humanidade? Vários pães, multiplicados: as crianças lutam para agarrá-los. Então o que resta de nós? Apenas a ganância, mesmo demonstrada por crianças, símbolo de pureza e ingenuidade?

O sexo não é tabu. Sexualidade destilada. Até a montanha provoca um orgasmo.

Ao tentar nos aproximar da perfeição, das divindades, apenas estamos nos tornando mais humanos, então? Por tudo que passaram, os habitantes de todos os planetas apenas humanizaram e mortalizaram o imortal. O que seria imortal, então? A própria tentativa de atingir o eterno, talvez?

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Vitroleiros!

Em uma tarde de domingo(na qual deveríamos estar preparando um seminário de filosofia e de antropologia) a idéia da Ariane caminha mais alguns passos e a gente começa a pensar no nome para o nosso (dela, inicialmente) blog de música. Vitroleiros. :)

Quem quiser, dá uma olhada. Tá ficando bem legal!

http://vitroleiros.org

Em breve vamos mudar o endereço para o oficial, daí dou uma avisada aqui.
(OK, post editado - já mudei o endereço!)