As pernas amarravam-se como se nunca mais fossem se soltar. Aquele nó movia-se com graça e harmonia. Suas peles tentavam se tornar uma só. Por mais que sua relação fosse explicitamente sincera, seus sentimentos não o eram. Ele, sem conseguir entender a si mesmo, permanecia com a situação conservada em um vidrinho de formol. Ela, que tentava entender tudo aquilo que estava se passando, corria, confusa, em um carrossel sem montaria. Como dois amantes agiam.
Somente naquela noite, porém, não iriam se amar, como dizem por aí.
Por mais que ambos tentassem se expressar, isso não bastava para continuarem ali. Qualquer um que olhasse para aqueles dois veria através de seus sentimentos transparentes algo maior que o amor. O casal já tinha percebido isso faz tempo. Talvez fosse isso que fizesse com que continuassem felizes com tudo e, portanto, permanecessem imóveis.
Essa era sua bênção e sua sina.
Mal sabiam eles, que daí alguns dias iriam dançar juntos na chuva e algo iria mudar. Engraçado dizer isso, já que com música começaram a relacionar-se. Mesmo assim, nesse dia era como se essa chuva, desafinadamente acolhedora, fosse outra música para os dois. Música, esta, que não sabiam dançar; finalmente o improviso guiou seus pés. Mal sabiam eles, que isso marcaria o fim dessa história – ou melhor, de um capítulo dela – para algo totalmente novo tomar seu lugar.
